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sábado, 29 de março de 2008

As coisas não se comunicam

"Se a produção agrícola se desse no domínio das coisas entre si, e não no domínio dos homens frente ao mundo, não haveria que falar em diálogo. E não haveria que falar precisamente porque as coisas entram no tempo através dos homens; deles recebem um significado-significante. As coisas não se comunicam, não contam sua história. (...)
É necessário, não obstante, justificar este medo do diálogo, e a melhor maneira é 'racionalizá-lo'. É falar de sua inviabilidade; é falar da 'perda de tempo'. Daí que, entre eles, como 'distribuidores' do saber erudito, e seus alunos, jamais será possível o diálogo. E o antidiálogo se impõe, ainda, segundo os que assim pensam, em nome, também da 'continuidade da cultura'.
Esta continuidade existe; mas, precisamente porque é continuidade, é processo, e não paralisação. A cultura só é enquanto está sendo. Só permanece porque muda. Ou, talvez dizendo melhor: a cultura só 'dura' no jogo contraditório da permanência e da mudança."
(Paulo Freire. Extensão ou Comunicação?)