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sábado, 29 de março de 2008

As coisas não se comunicam

"Se a produção agrícola se desse no domínio das coisas entre si, e não no domínio dos homens frente ao mundo, não haveria que falar em diálogo. E não haveria que falar precisamente porque as coisas entram no tempo através dos homens; deles recebem um significado-significante. As coisas não se comunicam, não contam sua história. (...)
É necessário, não obstante, justificar este medo do diálogo, e a melhor maneira é 'racionalizá-lo'. É falar de sua inviabilidade; é falar da 'perda de tempo'. Daí que, entre eles, como 'distribuidores' do saber erudito, e seus alunos, jamais será possível o diálogo. E o antidiálogo se impõe, ainda, segundo os que assim pensam, em nome, também da 'continuidade da cultura'.
Esta continuidade existe; mas, precisamente porque é continuidade, é processo, e não paralisação. A cultura só é enquanto está sendo. Só permanece porque muda. Ou, talvez dizendo melhor: a cultura só 'dura' no jogo contraditório da permanência e da mudança."
(Paulo Freire. Extensão ou Comunicação?)

quinta-feira, 6 de março de 2008

as posições das coisas

"Mais adiante havia o depósito de garrafas, o caixote de madeira, o livro apodrecido de contadoria, um pano sujo e de novo a laranja. O olhar não era descritivo, eram descritivas as posições das coisas.
Não, o que estava no quintal não era ornamento. Alguma coisa desconhecida tomara por um instante a forma desta posição. tudo isso constituía o sistema de defesa da cidade.
As coisas pareciam só desejar: aparecer - e nada mais. 'Eu vejo' - era apenas o que sepodia dizer. (...)

Estava olhando as coisas que não se podem dizer. (...)

Mesmo o erro era uma descoberta. Errar fazia-a encontrar a outra face dos objetos e tocar-lhes o lado empoeirado. (...)

Faltava a parte mais difícil da casa: a sala de visitas, praça de armas.
Onde cada coisa esperta existia como para que outras não fossem vistas? tal o grande sistema de defesa. (...)

As coisas eram difíceis porque, se se explicassem, não teriam passado de incompreensíveis a compreensíveis, mas de uma natureza a outra. Somente o olhar não as alterava."

A Cidade Sitiada. Clarice Lispector