Acabo de assistir ao documentário "Nas Terras do Bem-Virá" de Alexandre Rampazzo e Tatiana Polastri (e que também contou, na fotografia, com Fernando Dourado). Este filme foi lançado no Festival "É tudo verdade" de 2007, no qual recebeu Menção Honrosa.
Inicialmente, o que se vê é a esperança, a busca de um sonho, marcado no imaginário do trabalhador rural por propagandas governamentais de "melhores lugares no mundo". Lugares para se ter "um lugar" e deixar de ser errante.
Lentamente, o documentário nos leva ao universo em que o trabalho escravo se institui e ao papel daqueles que devem, legalmente, enfrentá-lo. Do trabalho escravo, há um deslocamento correto para a questão fundiária que toma como referência o sul do Pará e a expansão da devastação da floresta por toda a região média do Estado.
Ações de grande corporações entrelaçadas à pistolagem, violência policial, organização dos trabalhadores e seus porta-vozes mostram um mundo que a maioria dos estudantes e moradores da cidade desconhecem.
A morte da irmã Doroty Stang, rememorada, mostra um momento-chave capaz de traduzir a complexidade dos conflitos agrários em nosso país.
Um filme lindo, que não pretende buscar a objetividade, embora dê espaço ao universo e discursos de fazendeiros e gatos. Um filme que nos provoca o tempo todo, com arquivos de TVs regionais e declarações de toda a ordem. Um filme que provoca o espectador e pergunta: será que você está entendendo o que essas pessoas passam?
Os três anos de pesquisa, as viagens a 29 cidades de cinco estados do Norte e Nordeste, teve de se contentar em virar um documentário com 110 minutos.
A música fica por conta do grande compositor João Bá com Julian Tirado e Nanah Correia.
Conheço o Alexandre e a Tati (fomos professores e alunos) e trabalhei algum tempo com o Fernando. Várias vezes tive o prazer de ouvir o canto de João Bá.
Fico honrado de vê-los nesses 110 minutos, nas horas de terra e selva, de gente e desespero, de ódio luta e esperança. Fico feliz, também, pelos meus filhos.